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Liberdade, sinônimo de felicidade

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“De Canção em Canção”

Você se conhece? Sabe mesmo o que quer? Tem noção exata do que se tornou? E quando você sabe que está mentindo pra si mesmo e seguindo um caminho que não te pertence? É bom quando a gente assiste a um filme que te cobra essas perguntas, te faz refletir aquilo que você mais precisa: seu autoconhecimento. “De Canção em Canção”, o novo longa do diretor Terrence Malick e que acaba de estrear nos cinemas, é um filme denso, contemplativo, que não vai atingir todas as massas e que, por mais que tenha música no nome, acaba sendo até silencioso. Um elenco de peso dá a cadência do filme. Olha só a sinopse e os donos de seus personagens: na cena musical de Austin, no Texas, conhecida como a capital mundial da música ao vivo e local que abriga diversos festivais importantes de vários gêneros musicais, acontece um triângulo amoroso. Cook (Michael Fassbender) é um produtor bem-sucedido que mantém uma relação atípica com Faye (Rooney Mara). A jovem, por sua vez, acaba se apaixonando (ela deixa claro que este, sim, é o amor verdadeiro) por BV (Ryan Gosling), um músico iniciante que cria uma intensa relação de amizade e profissional com Cook. O romance de BV e Faye acaba gerando um conflito na medida em que seu passado com Cook vem à tona, fato que permite a inclusão na história de Rhonda (Natalie Portman), uma garçonete prestes a ser iludida, e Amanda (Cate Blanchett), uma elegante mulher de meia-idade que não sabe o quer. 

Sob a câmera experimental do ousado diretor de “Árvore da Vida” (2011) e a fotografia excepcional de Emmanuel “Chivo” Lubezki, os personagens são apresentados em cenários de tirar o fôlego. O enunciado da história é até simples, mas seus personagens são muito complexos, quase não conversam entre si, estão sempre se tocando, se explorando, ritmados, pensativos – e, assim, a narração de seus pensamentos é tão necessária quanto os enquadramentos agressivos e trêmulos do diretor, que busca explorar a intimidade, o enigmático, a perversidade e tudo aquilo que está escondido neles.

Entre muitas paredes e janelas de vidro, que demonstram justamente o contrário desta obscuridade, e muitas cenas sob a luz do pôr do sol, a história traz uma discussão sobre o que é felicidade, como ela está atrelada aos nossos sonhos e até que ponto as pessoas que amamos podem nos acompanhar ao buscá-la. A reflexão sobre liberdade é ainda maior: “de canção em canção, beijo a beijo”, a busca pelo desconhecido tem a mesma intensidade do discurso de ser livre. Seja no âmbito na libertação de contratos de gravadoras até na independência das relações pessoais e amorosas, todos querem a autonomia da emancipação. Livre para ter um eu próprio, livre para ser um todo.

Não espere um musical tradicional. Espere uma trilha sonora complementar aos sentimentos dos personagens e até mesmo com participações de músicos reais. A madrinha do punk, Patti Smith, tem atuação ativa e essencial, com sábios conselhos para a personagem de Rooney Mara. Até a letra de sua música “Birdland”, contemplada em uma parte do longa, é tocante. “Deixe-me entrar neste navio onde não somos humanos”, diz. Drama existencial, alusão a um senso de alienação ou busca por uma experiência descomunal? Nessa história que não é contada da forma usual e que exige muita atenção do espectador para captar pequenos detalhes, uma frase solta no filme resume muito bem essa complexidade: “Qualquer experiência é melhor do que experiência nenhuma”. Quem é você? Para onde você vai? O que você quer? Não se iluda. Não minta para si mesmo. Busque as experiências que realmente lhe convém. É simples assim: é só ter a coragem para aceitar o que John Lennon cravou na história: “Deixo as coisas que amo livres. Se elas voltarem é porque as conquistei. Se não voltarem é porque nunca as possuí”. Isso é libertador!

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