Home BOA DE GARFO Opinião: To The Bone #netflix
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Opinião: To The Bone #netflix

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Ellen tem anorexia, um transtorno alimentar caracterizado pela recusa do indivíduo em manter o menor peso adequado para sua altura e idade, através de atitudes que interferem no ganho de peso e alimentadas pelo medo intenso de engordar, além de um distúrbio na percepção da forma e do tamanho do próprio corpo.

Ellen faz abdominais, usa roupas largas e escuras, tem lanugos e se nega a receber tratamento para o transtorno: “eu estou no controle” e “eu não me sinto tão doente” são afirmações presentes. Numa das cenas, sua meia irmã faz um ‘quiz’, questionando quantas calorias tem no prato. Ellen conta calorias com a facilidade de uma calculadora. Na cena seguinte a irmã dá uma solução para o problema: diz para Ellen que ‘basta comer’.

Alguns vão dizer que o filme é rodeado de clichês. Eu não os chamaria assim. Eu diria que são sinais e sintomas comuns de um transtorno alimentar como a anorexia. Outros concordarão com a irmã, dizendo que basta comer. E uma porcentagem afirmará que Ellen só desenvolveu esse transtorno por causa família confusa e da ausência do pai.

Entretanto, não sabemos o real motivo para o desenvolvimento do transtorno. A conclusão “ela é assim porque não tem estrutura familiar” pode ser rasa, uma vez que o filme não mostra o início da doença, que pode ser causada por vários fatores – inclusive dietas restritivas.

tothebone

Um outro ponto interessante do filme é a presença de um menino com transtorno e uma menina acima do peso, convivendo no mesmo centro de tratamento. Muitas pessoas ainda enxergam os transtornos alimentares como exclusividades do sexo feminino e/ou de pessoas magras, o que é uma percepção equivocada. Estima-se que nos Estados Unidos a compulsão alimentar (vivenciada por uma das personagens) seja o transtorno mais prevalente, e muitas vezes o indivíduo em questão está bem acima do peso. Quanto a presença de Luke no filme, há uma crescente de meninos e homens com transtornos alimentares. Além disso, achei interessante a rápida menção feita sobre “transtorno alimentar e abuso sexual”: se transtorno já é um tabu, abuso sexual nem se fala. Porém essa relação pode acontecer em muitos casos, e por vezes passar despercebida.

O tratamento

Ellen se submete a um tratamento conduzido por Dr. Beckham, que consiste em ficar ‘internada’ em um casa onde eles fazem reuniões terapêuticas, refeições em grupos e se pesam constantemente. Esse tratamento não é algo convencional (pelo menos no Brasil) e tem alguns pontos que não concordo. Dentre eles a ausência de um nutricionista e o ‘ritual’da balança, onde todos que estão na casa sobem na balança, vêem o peso e recebem comentários que beiram o julgamento desnecessário.

Em contrapartida, eu sou a primeira a concordar com grupos de apoio e troca de idéias – sob orientação – entre pessoas que sofrem de um determinado tipo de problema. Acho enriquecedor e fundamental.

Também senti falta do acompanhamento de um nutricionista, do excesso de autonomia dos pacientes na hora de decidir sobre a alimentação e da ausência da discussão sobre esse tema. Dependendo da gravidade, quem sofre com o transtorno muitas vezes não está apto a decidir se precisa ou não comer ou a escolher o alimento. Além disso, a alimentação deve ser tema de discussão, justamente por fazer parte do problema e da solução.

A família

Uma das coisas mais interessantes do filme, na minha opinião, é como retrataram a reação da família perante o problema – que pode durar anos e anos. Uma pessoa que não está tão imersa nesse mundo irá julgar a mãe e a madrasta de Ellen. Dirão que elas são insensíveis e ignorantes. Porém, ninguém sabe o desgaste psicológico que é conviver com alguém que sofre de um problema psiquiátrico. Uma das cenas que achei mais ‘brilhantes’ foi o momento em que Ellen, a irmã e a madrasta conversam num momento de refeição e a Madrasta supõe que Ellen seja homossexual. Logo em seguida, diz que vai servir uma sobremesa e apresenta um bolo em formato de hambúrguer com a frase “Coma, Ellen”, acreditando que aquilo vai ajudar.

No filme, Dr. Beckham convida a família para participar de uma sessão terapêutica – cravada por discussões sobre os próprios problemas de cada um, deixando de lado as questões de Ellen. Um empurra-empurra para saber ‘quem é responsável’, algo realmente enfrentado por familiares. Observo pais e educadores gerando novos problemas no núcleo familiar enquanto procuram o agente causador dessa doença, enquanto ela não é unifatorial.

Eu comungo da dor dos pais de filhos que sofrem com transtornos alimentares. São mixed feelings: impotência, frustração, dor, preocupação, incompreensão e insatisfação. Quando o problema começa, pode ser interpretado como coisa de adolescente. Depois, vem a busca de uma solução simplista: “é só comer”. Até passar por todo processo de aceitar aquela condição e entender que ela pode ou não ter sido estimulada no ambiente familiar.

Acredito que a terapia deve fazer parte não só do tratamento do paciente, mas também da família. Pais ou educadores de homens e mulheres com transtornos alimentar devem ter acompanhamento psicológico não só para conduzir melhor o tratamento de seus filhos ou educandos, como para garantir a própria saúde mental. Não podemos cuidar se não nos cuidarmos.

As polêmicas

 Ainda rodeada pela polêmica do ’13 reasons why’, pensei se aquele filme não seria prejudicial ou não para quem sofre ou sofreu de transtorno alimentar. Mas achei interessante e mantenho a minha opinião sobre outras polêmicas: dificilmente um filme irá ser o causador de um problema tão grave. Os transtornos alimentares são multifatoriais e por isso fica difícil colocar a culpa em um só fator – ponto para o momento em que o médico e Ellen deixa isso muito claro para ela. Além disso, eu vejo muito mais como uma oportunidade de discussão do que um gatilho para o problema.

Eu sou da época que os sites pro bulimia e pro anorexia eram o grande ponto de discussão. Esses sim, alimentavam uma horda de meninas e meninos atrás de um corpo magro e inatingível e não acrescentavam em quase nada na hora de debater o problema.

E quanto a magreza de Ellen exibida no filme, eu fico indignada em pensar que um corpo magro inserido em um contexto específio pode incomodar mais do que os corpos mostrados nas redes sociais. Afinal, esses são amplamente divulgados com uma falsa imagem de plenitude e estão, na sua grande maioria, totalmente fora do contexto saúde

No mais, achei um filme super interessante. Pode ter romantizado algumas coisas e ter suas falhas. Porém, faz as vezes de um assunto pouco falado e tão presente. Quem está em tratamento, sugiro que converse com um especialista antes de assistir. Quem tem filhos (principalmente adolescentes) e gostariam de abordar o tema, assistam juntos. E quem quer saber mais sobre o tema, é um bom material!

Até a próxima!

Marina

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