Devoção, obsessão e a fome em questão

“Pegando Fogo”

Quer agradar todo mundo? Então, fale de comida… Uns são mais chatos, exigentes ou seletivos, outros são mais agradáveis, flexíveis ou tolerantes, mas o fato é que comida é um assunto unânime que agrada dez a cada dez pessoas. E quando esse tema vai para o cinema, é certeza que o espectador vai ser fisgado pela boca. No filme “Pegando Fogo”, cujo roteiro é assinado por Steven Knight e a direção é de John Well – e que está disponível no Telecine Play –, os bastidores de conceituados restaurantes são retratados com maestria, o que nos deixa com água na boca durante toda a produção. Tudo bem que as cenas das montagens dos pratos são bem ágeis, e esses pratos são muito refinados, quase obras de arte, mas a tentação é constante. Pois me aponte alguém que não sonhe com jantares chiques ou uma alimentação diária e extraordinária? Nosso imaginário vai longe, não me venha com uma ideia contrária!

Entrando mais no assunto, o filme é muito mais do que isso… Ou não! Depende do ponto de vista. A trama gira em torno do chef Adam Jones, papel de Bradley Cooper, alguém que tinha tudo na vida, inclusive duas estrelas Michelin, o maior prêmio internacional para um chef de restaurante, mas que também tinha alguns péssimos hábitos na hora de gerir sua cozinha. O abuso de álcool e drogas era uma constante, o que o levou à decadência total. Após ser expulso de um restaurante em Paris, ele vai tentar alcançar sua terceira estrela em Londres como um incansável ator de Hollywood busca uma estatueta do Oscar. Assim, ele é contratado por seu antigo maître para ser o responsável pela cozinha de um rebuscado restaurante inglês. Injetando autoconfiança na equipe e tentando vencer seus próprios demônios, o temperamental Adam só replica o comportamento de muitos chefs espalhados por aí, em que a devoção, a obsessão e a busca pela perfeição são os verdadeiros pilares (e loucuras) para alcançar a consagração.

Um dos problemas do longa é que, por mais que você tenha uma queda por Bradley Cooper, é bem difícil você torcer por um protagonista arrogante, prepotente e cheio de problemas. Sabe aquela imagem negativa do chef cobrando firme, gritando, esbravejando, jogando tudo pro alto e desenhando em sua mente uma cozinha conturbada no meio do caos em busca da excelência? Pois é… Como querer um final feliz pra um sujeito esnobe, presunçoso e mal-educado assim? Suas explosões de raiva são claramente inspiradas em um dos chefs de cozinha mais importantes do mundo, Gordon Ramsay, mas não se prenda a isso! É justamente a dinâmica encantadora de um ambiente de alta gastronomia, como eu disse no início do texto, o que há de melhor no filme, que ainda conta no elenco com Sienna Miller, Emma Thompson, Daniel Brühl, Jamie Dornan, Alicia Vikander, Omar Sy, Uma Thurman e Lily James.

Já com água na boca, vamos resumir: “Pegando Fogo” não é o melhor dos filmes do gênero, mas entrega de bandeja um panorama fantástico sobre os bastidores de um sublime restaurante de elite. Existem até umas subtramas para atrair ainda mais a atenção do telespectador, como a relação de Adam com a ex, Anne Marie (Alicia Vikander), e a cobrança de traficantes franceses por uma dívida antiga, mas não “pegam fogo”, como o título induz. Se essas entradinhas saborosas e esses aperitivos convidativos já te satisfazem cinematograficamente, se jogue sem pensar muito no prato principal. Porque, às vezes, você pode ir com muita sede ao pote e queimar a língua em algo ardente ou sem tempero. O fato é que, depois desse filme, a fome será seu desespero.

Até!

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