A liberdade pode vir da desobediência 

“Desobediência”

Sabe quando você chega atrasado à sessão de cinema, e o filme já começou? Você corre tropeçando no escuro até a primeira poltrona vaga e já percebe que está perdendo algo logo de cara, porque a cena é tensa, intensa, com discursos longos que, consequentemente, vão te fazer refletir no decorrer da produção. Então, não façam como eu e não cheguem atrasados à sessão de “Desobediência”, longa em cartaz nos cinemas, dirigido pelo chileno Sebastián Lelio (que ganhou o Oscar 2018 de melhor filme estrangeiro por “Uma Mulher Fantástica”), produzido e estrelado por Rachel Weisz e que tem também Rachel McAdams como protagonista. A cena que já cheguei perdendo era de um rabino poderoso e influente discursando sobre o poder da escolha, a liberdade de seguir seus próprios caminhos e o livre arbítrio. Foi o que peguei no finalzinho… Na hora, eu pensei: “Putz, perdi o fio da meada do filme. Enfim… Qualquer coisa é só mais um filme na lista, né?”. Não era só mais um! Mal sabia eu que esse seria o melhor drama que assisti neste ano até agora…

Eu fico chateado quando chego atrasado a sessões assim porque não gosto de  fazer isso nem tenho costume. Outra coisa que não costumo fazer é entrar na sala sem antes saber pelo menos o mínimo da sinopse. Fui descobrindo o enredo cena a cena, o que é bom também. Na história, a fotógrafa Ronit (Weisz), que mora em Nova York, retorna para sua cidade natal pela primeira vez em muitos anos em virtude da morte do pai, o tal respeitado rabino da primeira cena. Seu afastamento foi bastante abrupto, e o reaparecimento na comunidade ortodoxa inglesa é visto com muita desconfiança, mas ela acaba acolhida por um amigo de infância, Dovid (Alessandro Nivola), protegido de seu pai e, para a surpresa dela, atualmente casado com sua paixão proibida da juventude, Esti (McAdams). Assim, o excelente e indagador roteiro, que foge do clichê e não ofende ninguém, trata desse reencontro com o passado e do confronto com o presente, centrando tanto nesse triângulo-tabu quanto no complicado relacionamento pai-filha em uma sociedade em que as mulheres não respondem por suas escolhas, usam perucas e, muitas vezes, são segregadas dos homens, não podendo nem encostar neles em público.

O grande lance do filme é a representatividade desse tema LGBT e feminino na tela grande. O diretor, acostumado ao universo das mulheres, conseguiu abordar a temática de homossexualidade e religião de uma maneira nunca antes vista dentro da indústria cinematográfica. A dinâmica entre os três personagens principais é admirável, mas a atuação de Rachel McAdams é que merece destaque. Pra mim, Esti, sua personagem, é a dona da história. É por quem torcemos, por sua libertação, é de onde o roteiro tira toda sua ação. Por mais que as lentes acompanhem Ronit o tempo todo e tudo gire em torno de sua história, Esti tem um papel essencial. E a atriz a representou muito bem. Tanto que aquela puritana de um beijinho seco no início se torna um furacão numa das melhores cenas de sexo lésbico do cinema. A química delas é surreal, com duas Rachels completamente entregues. Muito quente, nada vulgar. Algo desobediente, para se ver repetidamente.

A mensagem final – que não deixa de ser a inicial, aquela da cena que perdi – também deve ser repetida e reiterada. Sob a nostálgica trilha de “Lovesong”, do The Cure, que com sua “However far away / I will always love you” (“Não importa a distância, eu sempre vou te amar”, em português) cai como uma luva para o amor “proibido” das personagens, há uma preocupação em deixar clara a conclusão de libertação amiúde. Tal como o romance homônimo de Naomi Alderman no qual foi baseado, “Desobediência” surpreende pela delicadeza, pela sensibilidade, pelo respeito à individualidade e pelo poder que cada um tem ao fazer suas escolhas. Escolhas essas que devem ser livres, autônomas, soberanas. Às vezes, a fuga não é apenas um recurso à liberdade, mas uma desobediência a um cenário de proibição e negação. E o livre-arbítrio, isento de qualquer condicionamento, motivo ou causa determinante, está aí para mostrar que há felicidade plena num descomplicado “whenever I’m alone with you / you make me feel like I am home again” (“sempre que estou sozinho com você, você me faz sentir como se estivesse em casa novamente”). Simples assim, livre assim. É… Eu sabia que aquela cena lá no inicinho iria me fazer falta.

Até!

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